quarta-feira, 26 de março de 2008

A conquista do Premio Deutsche

“I niciei a construção de um novo balão e novo motor, este um pouco mais forte,aquele um pouco maior. Três semanas,contadas dia por dia, após o último desastre, meu aparelho, o n° 6, estava pronto.
O tempo, porém, continuava mau. Em 19 de outubro de 1901 à tarde, pois a manhã foi chuvosa, a partida oficial teve lugar ás 2 horas e 42. Embora o vento me açoitasse de lado, com tendência para levar-me para a esquerda da Torre, mantive-me na sua linha direta. Avancei elevando gradualmente a aeronave a uma altitude de 10 metros acima do seu pico. Esta manobra fazia-me perder tempo, mas premunia-me, na medida do possível, contra todo perigo de contato com o monumento. Subi de novo, contornei a Torre, a uma altura de 250 metros, sobre uma enorme multidão que aí estacionava à minha espera. A volta foi demorada. O vento era contrário. O motor, que até então havia se comportado bem, assim que deixou a Torre para trás uns 500 metros, ameaçou parar. Tive um instante de grave
indecisão. Era preciso tomar uma medida rápida. Com o risco de desviar o rumo,
abandonei por um momento o leme a fim de concentrar a atenção na maneta do
carburador e na alavanca de comando da faísca elétrica.
O motor, que havia quase parado, retomou o seu ritmo. Eu acabava de atingir o Bosque de Bolonha. Aí, por um fenômeno que bem conhecem todos os aeronautas, a frescura das árvores começou a fazer o balão progressivamente mais pesado. E por desagradável coincidência, o motor voltou a moderar a velocidade. De tal sorte que a aeronave descia ao mesmo tempo que a força motriz tomava-se menor. Para me opor à descida tive que empurrar para trás o guide-rope e os pesos deslocáveis. A aeronave tomou uma posição diagonal e o que restava de energia ao propulsor fê-lo remontar de modo contínuo.

Eu havia chegado à pista do campo de corridas d’Auteuil. O aparelho passava por cima do público, com a proa levantada muito alto, e eu ouvia os aplausos da enorme multidão, quando, repentinamente, meu caprichoso motor readquiriu sua plena velocidade. Subitamente acelerado, o propulsor, que se encontrava quase sob a aeronave, tão empinada ia esta, exagerou ainda mais a inclinação. Às ovações sucederam-se gritos de alarme.
Da minha saída ao momento em que passei do zênite do ponto de partida, decorreram 29 minutos e 30 segundos. Com a velocidade que levava, passei a linha da chegada - como fazem os yachts, os barcos a petróleo, os cavalos de corridas, etc.
- , diminuí a força do motor e virei de bordo; então, voltando, e com menos velocidade, manobrei para tocar a terra, o que fiz em 31 minutos após minha partida. Não sabia ainda qual o tempo exato. Gritei: - Ganhei? Foi a multidão que me respondeu: - Sim! Pois bem, alguns senhores quiseram que fosse esse o tempo oficial! Grandes polêmicas. Tive comigo toda a imprensa e o povo de Paris e também Son Altesse Imperiale le Prince Roland Bonaparte, presidente da Comissão Científica que ia julgar o assunto. O voto me foi favorável.”

Acidente com o número 5


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“C
hego agora ao dia terrível: 8 de agosto de 1901. Em presença da Comissão Científica do Aeroclube, larguei-me para a Torre Eiffel. Contornei-a ao cabo de 9 minutos e tomei a direção de Saint Cloud. Por infelicidade, um acidente enfraquecera a mola de uma das válvulas automáticas e o balão perdia hidrogênio. Arrisquei prosseguir. O balão contraía-se visivelmente; a tal ponto que ao alcançar as fortificações de Paris, perto de La Muette as cordas de suspensão arqueavam-se tanto que as mais vizinhas do propulsor engancharam-se na hélice em marcha. Vi o propulsor cortá-las e arrancá-las. Parei o motor.

O vento, que soprava com força, levou instantaneamente o aparelho para o lado da Torre Eiffel. Ao mesmo tempo, eu caía. A perda de gás era considerável.
Teria podido atirar fora muito lastro e amortecer sensivelmente a queda, mas assim o vento teria tempo de me jogar contra os ferros do grande monumento. Preferi deixar a aeronave ir a seu modo (…) Eu caía. E o vento me levava para a Torre Eiffel (…) a extremidade do meu balão alongado, que conservava ainda todo o seu gás, foi bater contra um telhado mesmo no momento de franqueá-lo.
O balão estourou, com um grande barulho (…) Um saco de papel cheio de ar, batido de encontro a uma parede, arrebenta-se, produzindo um grande ruído; pois bem, o meu balão, saco que não era pequeno, fez um barulho assim, mas... em ponto grande. Ficou completamente destruído.
Não se encontrava pedaço maior do que um guardanapo!
Salvei-me por verdadeiro milagre,
pois fiquei dependurado por algumas cordas, que faziam parte do balão, em posição incomoda e perigosa,
de que me vieram tirar os bombeiros de Paris”


Saiba mais sobre o criterioso trabalho de reconstituição destas imagens e fatos

terça-feira, 25 de março de 2008

O Premio Deutsch

“A uma das assembléias do Aero Club compareceu um senhor,muito tímido, muito simpático, que ofereceu, ele, Deutsch de la Meurthe, um prêmio de cem mil francos ao primeiro aeronautaque, dentro dos cinco anos seguintes, partindo de St. Cloud, que era então onde se achava o Parque do Club, circunavegasse a Torre Eifel e voltasse ao ponto de partida, tudo em menos de 30 minutos. Acrescentou mais, que no fim de cada ano, caso não fosse ganho o prêmio, se distribuíssem os juros do dinheiro entre os que melhores provas tivessem obtido. Era sentir geral que cinco anos se passariam sem que o prêmio fosse ganho. Precisava atingir a uma velocidade de mais ou menos 30 km por hora. No dia seguinte à instituição do prêmio Deutsch,
iniciei a construção do meu n.º 4 e
de um hangar em St. Cloud.
Adquiri o motor mais leve que encontrei no mercado, tinha a força de 9 HP e pesava 100 quilos. Era a maravilha de então... Com esse balão, no ano de 1900, meu único concorrente ao prêmio foi o Sr. Rosc, cujo balão não conseguiu nunca subir”.

Começo da vida de inventor


“Comprei um dia um triciclo a petróleo. Levei-o ao Bois de Boulogne e, por três cordas, pendurei-o num galho horizontal de uma árvore, suspendendo-o a alguns centímetros do chão. É difícil explicar o meu contentamento ao verificar que, ao contrário do que se dava em terra, o motor do meu triciclo, suspenso, vibrava tão agradavelmente que quase parecia parado.

Neste dia começou a minha vida de inventor “.

Corri a casa, iniciei os cálculos e os desenhos do meu balão n° 1. Nas reuniões do Automóvel Club - pois o Aeroclube não existia ainda - disse aos meus amigos que pretendia subir aos ares levando um motor de explosão sob um balão fusiforme. Foi geral o espanto: chamavam de loucura o meu projeto. O hidrogênio era o que havia de mais explosivo! Se pretendia suicidar-me, talvez fosse melhor sentar-me sobre um barril de pólvora em companhia de um charuto aceso. Não encontrei ninguém que me encorajasse.

A 18 de setembro [1898], minha primeira aeronave, o “Santos Dumont n° 1” estava estendida sobre a relva, entre as lindas árvores do jardim. (Ele sempre prezou a simplicidade e facilidade).

Como o motor do seu triciclo não era muito potente, Alberto encontrou na Rue Du Colisée uma oficina de motores a petróleo de Albert Chapin (que mais tarde viria a se tornar seu mecânico chefe) e mandou reformar o motor de seu triciclo com dois cilindros do motor De Dion, que pelos seus cálculos, iria produzir 3,5 HPs e pesaria aproximadamente 30 kg.

Além disso, tinha que saber o peso da hélice de duas pás, das cordas, o seu próprio peso, a gasolina, as amarras, corda guia a fim de poder calcular o volume correto do balão alongado.

Continuou usando a sua seda japonesa, que se mostrou muito eficiente no "Balão Brasil".


Depois de vários dias de trabalho, Alberto levou seu "croqui" para a oficina de Lachambre e Machuron.

que logicamente acharam absurda a combinação de um motor a gasolina suspenso por um balão cheio de gás altamente inflamável.

Mais uma vez, Alberto teve de convencê-los que sua idéia seria viável, depois de muito conversar, os dois aeronautas concordaram em construir tal balão alongado, e que o próprio Alberto ficaria responsável pela construção do motor.

O seu motor já estava em funcionamento, porem, havia ainda pequenas coisas a ajustar, Alberto queria evitar ao máximo o uso de lastros então, teve a idéia de colocar 2 pesos móveis de equilíbrio no cento. Um na frente, e o outro na parte de trás. (podendo ser deslocados para frente e para trás).

Assim, Alberto conseguia levantar e baixar "o nariz" do balão quando quisesse.

Estava satisfeito, e ordenou a desmontagem do balão para o transporte até o jardim do novo zoológico no Bois de Boulogne, local das primeira prova com ele.


“Segui as instruções de Lachambre a Machuron de colocar o dirigível em direção as arvores e partir a sotavento. Parti do local, que eles me indicaram, e no mesmo segundo, tal como eu receava, meu navio aéreo foi se rasgar contra as árvores. O acidente serviu, pelo menos, para demonstrar aos incrédulos a eficiência do meu motor e do meu propulsor. Não perdi tempo em lamentações.


Dois dias mais tarde, a 20 de setembro, largava do mesmo campo, desta vez, porém, do ponto escolhido por mim. Desta vez a favor do vento transpus sem acidentes o cimo das árvores, e logo em seguida comecei a fazer evoluções para a demonstração da aeronave aos parisienses acorridos em multidão. Tive então, como sem cessar, daí por diante, os aplausos e a simpatia do povo de Paris, com quem meus esforços sempre encontraram um testemunho generoso e entusiasta.

Sob a ação combinada do propulsor, que lhe imprimia movimento, do leme, que lhe permitia a direção, do guiderope que eu deslocava, e dos dois sacos de lastro que eu fazia deslizar conforme a minha fantasia, ora para diante, ora para trás, logrei a satisfação de evoluir em todos os sentidos, da direita para a esquerda, de cima para baixo e de baixo para cima.


(...) Enquanto estive subindo, o hidrogênio, em razão da depressão atmosférica, aumentou de volume; e o balão, bem esticado, conservou sua rigidez; tudo ia pelo melhor. A complicação foi, porém, na descida. A bomba de ar destinada a obviar a contração do hidrogênio mostrou-se de capacidade insuficiente. O longo cilindro,
que formava o invólucro, repentinamente começou a dobrar-se pelo meio, como um canivete. (…) A descida foi feita a razão de 4 a 5 metros por segundo. Por felicidade um grupo de meninos brincava com papagaios. Uma súbita idéia atravessou-me o espírito: gritei-lhes que agarrassem o meu guiderope, que já tocava o solo, e corressem com toda a força contra o vento. Eram garotos inteligentes, pegaram no instante propício a idéia e a corda. E o resultado deste auxilio in extremis foi imediato, e tal qual eu esperava. (…) E depois variei assim os meus prazeres:
Subi em balão e desci em papagaio (...). A manobra amorteceu a violência da queda e evitou-me, pelo menos, um choque perigoso. Estava eu salvo pela primeira vez! Agradeci o inestimável serviço dos bravos meninos, que ainda me ajudaram a arrumar as coisas dentro da barquinha. Chamei uma carruagem, e transportei para Paris as relíquias da aeronave”.

O primeiro vôo de Santos=Dumont

"Guardo uma recordação indelével das deliciosas sensações de minha primeira tentativa aérea. Cheguei cedo ao parque de aerostação de Vau-girard, a fim de não perder nenhum dos preparativos.

O balão, de uma capacidade de setecentos e cinqüenta metros cúbicos, jazia estendido sobre a grama.
A uma ordem do Sr.Lachambre, os operários começaram a enchê-lo de gás.E em pouco a massa informe começou a se transformar numa vasta esfera.Às 11 horas os preparativos estavam terminados. Uma brisa fresca acariciava a barquinha, que se balançava suavemente sobre o chão.

A um dos cantos dela,com um saco de lastro na mão, eu aguar-dava com impaciência o momento da partida. Do outro, o Sr. Machuron gritou:- Lâchez tout! No mesmo instante, o vento deixou de soprar. Era como se o ar em volta de nós se tivesse imobilizado. É que havíamos partido, e a corrente de ar que atravessávamos nos comunicava sua própria velocidade. Eis o primeiro grande fato que se observa quando se sobe num balão esférico. Esse movimento imperceptível de marcha possui um sabor infinitamente agradável.

A ilusão é absoluta. Acreditar-se-ia, não que é o balão que se move, mas é a terra que foge dele e se abaixa. No fundo de um abismo que se cavava sob nós,a mil e quinhentos metros, a terra, em lugar de parecer redonda como uma bola,apresentava a forma côncava de uma tigela, por efeito de um fenômeno de refração que faz o círculo do horizonte elevar-se continuamente aos olhos do aeronauta.Aldeias e bosques, prados e castelos desfilavam como quadros movediços em cima dos quais os apitos das locomotivas desferiam notas agudas e longínquas. Com os latidos dos cães, eram os únicos sons que chegavam ao alto.

A voz humana não vai a essas solidões sem limites.As pessoas apresentavam o aspecto de formigas caminhando sobre linhas brancas, as estradas; as filas de casas assemelhavam-se a brinquedos de crianças.A sombra assim produzida (por uma nuvem que encobriu o sol) provocou um esfriamento do gás do balão que, murchando, começou a descer, a princípio lentamente, depois com velocidade cada vez maior. Para reagir, deitamos lastro fora.

S=D "Sobre esse fundo de alvura imaculada, (acima da camada de nuvens) o sol projetava a sombra do balão; e nossos perfis,fantasticamente aumentados, desenhavam-se no centro de um triplo arco-íris".
Sobre esse fundo de alvura imaculada, (acima da camada de nuvens) o sol projetava a sombra do balão; e nossos perfis,fantasticamente aumentados, desenhavam-se no centro de um triplo arco-íris.
S=D "jatos irisados de vapor gelado, comparáveis a grandes feixes de fogos de artifício".

[um almoço com ovos duros,vitela e frangos frios, queijo, gelo, frutos,doces e regado a champanhe, café e licor] jatos irisados de vapor gelado, comparáveis a grandes feixes de fogos de artifício.
S=D "Por instantes os flocos formavam-se, espontâneos, sob os nossos olhos, mesmo nos nossos corpos".
O calor do sol, pondo as nuvens em ebulição, fazia-as lançar em derredor de nossa mesa
A neve, como que por obra de um milagre,espargia-se em todos os sentidos, em lindas e minúsculas palhetas brancas. Por instantes os flocos formavam-se, espontâneos, sob os nossos olhos, mesmo nos nossos corpos. Acabava eu de beber um cálice de licor quando uma cortina desceu subitamente sobre esse admirável cenário de sol,nuvens e céu azul. O barômetro elevou-se rapidamente cinco milímetros, indicando brusca ruptura do equilíbrio e uma descida precipitada. O balão devia ter se sobrecarregado de muitos quilos de neve; caía como uma nuvem. A neblina nos envolveu em uma obscuridade quase completa. Distinguíamos ainda a barquinha, nossos instrumentos, as partes mais próximas do cordame. Mas a rede que nos prendia ao balão não era mais visível senão até certa altura; e o balão, ele próprio, desaparecera.Experimentamos assim, e por instantes, a singular sensação de estarmos suspensos no vácuo, sem nenhuma sustentação, como se houvéssemos perdido nosso último grama de gravidade e nos achássemos prisioneiros do nada opaco.

Após alguns minutos de uma queda que amortecemos soltando lastro, vimo-nos abaixo das nuvens, a uma distância de cerca de 300 metros do solo. A nuvem que provocara a nossa descida era prenúncio de uma mudança de tempo. Pequenas rajadas começavam a impelir o balão da direita para a esquerda e de cima para baixo. De espaço a espaço o guiderope - umagrande corda de uns 100 metros de comprido, que flutuava fora da barquinha, - tocava no chão. A barquinha não tardou por sua vez a roçar as copas das árvores.O que se denomina fazer o guide-rope apresentou-se-me assim em condições particularmente instrutivas. Tínhamos ao alcance da mão um saco de lastro: se um obstáculo qualquer se apresentasse no caminho soltávamos alguns punhados de areia; o balão subiria um pouco e a dificuldade seria vencida. Mais de 50 metros do cabo arrastavam-se já pelo chão. Não era preciso tanto para nos mantermos em equilíbrio a uma altitude inferior a 100metros, pois havíamos decidido não exceder disso até o fim da viagem.Durante um quarto de hora fomos sacudidos como um cesto de legumes e só nos libertamos aliviando um pouco de lastro. O balão deu então um pulo terrível e foi como uma bala furar as nuvens.Estávamos ameaçados de atingir alturas que depois nos podiam ser perigosas para a descida, dada a pequena provisão de lastro de que já dispúnhamos. Era tempo de recorrer a meios mais eficazes: abrir a válvula de manobra para que o gás escapasse. Foi obra dum minuto. O balão retomou a descida e o guide-rope tocou de novo o solo.Não nos restava senão dar por encerrada aí a excursão; a areia estava quase toda esgotada. O local de aterrisagem pertencia ao parque do castelo de La Ferrière, propriedade do sr. Alphonse de Rothschild. "
Saiba mais sobre o trabalho de pesquisa de Luiz Pagano para compor esta matéria do blog

Infância em Cabangu


Ser-me-ia impossível dizer com que idade construí os meus primeiros papagaios de papel. Lembro-me entretanto nitidamente das troças que faziam de mim os meus camaradas, quando brincavam de "passarinho-voa".

O divertimento é muito conhecido. As crianças colocam-se em torno de uma mesa, e uma delas vai perguntando, em voz alta: "Pombo voa?". . . "Galinha voa?". . . "Urubu voa?". . . "Abelha voa?"... E assim sucessivamente. A cada chamada todos nós devíamos levantar o dedo e responder. Acontecia, porém, que, de quando em quando, gritavam: "Cachorro voa?"... "Raposa voa?"... ou algum disparate semelhante, a fim de nos surpreender. Se algum levantasse o dedo tinha de pagar uma prenda.

E meus companheiros não deixavam de piscar o olho e sorrir maliciosamente cada vez que perguntavam: "Homem voa?"... É que no mesmo instante eu erguia o meu dedo bem alto, e res- pondia: "Voa!" com entonação de certeza absoluta, e me recusava obstinadamente a pagar a prenda.

Quanto mais troçavam de mim mais feliz eu me sentia. Tinha a convicção de que um dia os trocistas estariam ao meu lado.

Entre os milhares de cartas que me chegaram às mãos, no dia em que ganhei o prêmio Deutsch, uma houve que me causou particular emoção. Transcrevo-a a título de curiosidade:


"Você se lembra, meu caro Alberto, do tempo em que brincávamos juntos de "Passarinho voa?" A recordação dessa época veio-me ao espírito no dia em que chegou ao Rio a notícia do seu triunfo. O homem voa, meu caro! Você tinha razão em levantar o dedo, pois acaba de demonstrá-lo voando por cima da torre Eiffel. E tinha razão em não querer pagar a prenda. O Senhor Deutsch paga-a por você. Bravo! Você bem merece este prêmio de 100.000 francos. O velho jogo está em moda em nossa casa mais do que nunca; mas desde o 19 de Outubro de 1901 nós lhe trocamos o nome e modificamos a regra: chamamo-lo agora o jogo do "Homem voa?" e aquele que não levantar o dedo à chamada, paga prenda.

Seu amigo
Pedro."
Linda infancia de Santos=Dumont em Cabangú - Quando brincava nos locomoveis de seu pai testava seus conhecimentos em mecânica
O Sonho de Voar de Santos=Dumont ficava ainda mais intenso quando soltava suas pipas, e quando lia Julio Verne - Aqui vemos Santos=Dumont sonhando em voar no Albatroz, do fictício Robur de Julio Verne. A direita Henrique Dumont faz de Santos=Dumont um homem rico


Esta carta me transporta aos dias mais felizes de minha vida, quando, à espera de melhores oportunidades, eu me exercitava construindo aeronaves de bambu, cujos propulsores eram acionados por tiras de borracha enroladas, ou fazendo efêmeros balões de papel de seda.

Cada ano, no dia 24 de junho, diante das fogueiras de São João, que no Brasil constituem uma tradição imemorial, eu enchia dúzias destes pequenos "mongolfiers" e contemplava extasiado a ascensão deles ao céu.

Nesse tempo, confesso, meu autor favorito era Júlio Verne. A sadia imaginação deste escritor verdadeiramente grande, atirando com magia sobre as imutáveis leis da matéria, me fascinou desde a infància. Nas suas concepções audaciosas eu via, sem nunca me embaraçar em qualquer dúvida, a mecânica e a ciência dos tempos do porvir, em que o homem, unicamente pelo seu gênio, se transformaria em um semideus."

Alberto Santos=Dumont nasceu no dia 20 de julho de 1873 em Cabangu, no Município de João Aires, próximo à cidade de Santos=Dumont (antiga Palmira), no Estado de Minas Gerais. Desde pequeno gostava de dirigir maquinas e fazer pequenas invenções, aos sete anos de idade dirigia os locomóveis da fazenda e aos doze seu pai autorizou-o à dirigir a locomotivas Baldwin. Consertava a máquina de costura de sua mãe e acabou fazendo manutenção dos separadores de café da fazenda.

Quanto a fortuna que tornou a vida de inventor viável, bem aqui também o aviador relata com suas próprias palavras...

“tudo aconteceu quando ainda era jovem, a meu pai, o senhor Henrique Dumont, não passara despercebida a minha Irresistível paixão pela navegação aérea, levou-me ao cartório do seu tabelião, e me concedeu a escritura de emancipação, aos 18 anos de Idade. Conduziu-me após ao seu escritório, depôs-me nas mãos títulos no valor de muitas centenas de contos, dizendo-me:


- Já lhe dei hoje a liberdade; aqui está mais este capital.

Tenho ainda alguns anos de vida; quero ver como você se conduz; vai para Paris, o lugar mais perigoso para um rapaz. Vamos ver se se faz um homem; prefiro que não se faça doutor; em Paris, com o auxilio dos nossos primos, você procurará um especialista em Física, Química, Mecânica, Eletricidade, etc. estude estas matérias e não se esqueça que o futuro do mundo esta na Mecânica. 

Você não precisa pensar em ganhar a vida; eu lhe deixarei o necessário para viver, eis aqui o meu presente, estou te dando o futuro.

Seguindo sua recomendação não me fiz doutor...”